A estrada é uma reta enorme. Daquelas que desaparecem no horizonte de areia. Chamar de asfalto a sucessão de buracos e rachaduras seria otimismo. As faixas, uma vaga lembrança. Guarnecendo a peça principal, restos de pneus e carcaças de bois. Para que não fique dúvida sobre o abandono, as placas estão enferrujadas além de qualquer possibilidade de leitura. Completam o cenário tétrico as núvens negras da tempestade prestes a despencar, o vento forte assobaindo contra o carro e o indicador de combustível na reserva.
Queria dizer que essa descrição é um figmento de minha imaginação. Mas não é, esse lugar existe.
É verdade sim, andei meio ausente. Deste blog também, mas isso é consequência.
Suprimi a racionalidade para Experimentar um pouco do mundo, com o mínimo de crítica possível. Mas a supressão não foi absoluta, do contrário não teria o que contar. Tampouco foi intencional, não acho teria ido tão longe se fosse. E por caminhos tortuosos cheguei a lugares inusitados.
Mas não deixe que o “cheguei” tome dimensão de finalidade ou conclusão. Acreditando, prematuramente, ter cessado essa abstenção, foi que comecei a escrever essa missiva. Mas não podia terminá-la, sem superar a idéia contida nessas palavras que acabaste de ler. De que esse estado de consciência alterado, de alguma forma, se associava à perda. Não poderia estar mais errado.
Comecemos pois pelo começo. A descrição que inicia este escrito não é para ambientar alguma historinha do começo de 2005: Me utilizo do episódio na dificuldade de destilar em lógica a experiência catártica, buscando transmitir por identificação o que senti.
Depois da negação veemente da existência de diversas coisas(improváveis, fato), me disseram que o núcleo da terra é um coração cheio de ódio. Pois eu discordo. O centro (provavelmente) ferroso deste planeta (mais ou menos) equidista de todos os seres da nossa raça violenta, e é quente, então não parece de todo ruim compará-lo ao músculo bombeando sangue cheio de adrenalina. Mas, por se tratar de núcleo, escolheria algo mais fundamental, mais antigo.
Um coração cheio de medo.
Mas antes de responder porque, talvez seja apropriado inspirar vigorosamente duas vezes e relembrar a velha prece.
Medo é o inimigo da mente.
É a pequena morte que a tudo oblitera…
Não precisa ir muito longe… qualquer pessoa com a capacidade lógica de uma calculadora de camelô consegue entender: O homo-habilis que pegava sua lança mais rápido tinha melhores chances sobreviver ao ataque daquele predador. Mas não quero me estender no argumento evolucionista, não é algo que domine plenamente. Tão pouco pretendo explorar o processo que descontextualiza um mecanismo de sobrevivência, e o transforma numa espécie de sobre-carga sensorial que impede a realização de grandes feitos.
Reconheço, não querer explorar essa idéia é contrário àquilo que seria meu modus operandi. Mas fui lá… E não achei nada particularmente valioso. Interessante talvez, mas é racional.
E qual o grande problema nisso, me perguntariam justamente. Bom, a mente racional é, em grande parte, uma máquina de criar conforto. Conforto não produz grandes homens, produz gordos apáticos.
Apatia, que parece ser denominador comum à nossa sociedade, se expressa com maestria na segunda lei de Sturgeon. Ora, dizer que 90% de tudo é lixo é um forma bem eficaz de se proteger das questões que esse “todo resto” pode levantar. E mais medo se revela quando uns caras legais dizem que é um número otimista.
Olhar os efeitos permite intuir um pouco sobre as causas. Cabe então consultar o senhor michaelis por uma definição.
medo1
(é) adj (lat medu) Que pertence ou se refere à Média. adj+smHabitante ou natural da Média.
medo2
(é) sm (cast médano) Monte de areias acumuladas pelo vento à beira-mar; duna.
medo3
(ê) sm (lat metu) 1 Perturbação resultante da idéia de um perigo real ou aparente ou da presença de alguma coisa estranha ou perigosa; pavor, susto, terror. 2 Apreensão. 3Receio de ofender, de causar algum mal, de ser desagradável.sm pl Gestos ou visagens que causam susto.
A primeira e a segunda definições levantam umas coincidências no mínimo curiosas. Da terceira, decorre a noção de que medo é uma forma de antecipação da perda. Alguém poderia dizer que tem medo daquilo que não conhece ou compreende. Mas a demonstração é imediata, o medo do desconhecido é, em essência, o medo da perda que isso pode representar. À essa noção, talvez crua e provavelmente simplista, se adiciona um pouco de poesia quando se pensa que Phobos é o filho de Afrodite com Ares.
Mas, dêmos um passo atrás para não cair no equívoco de que fundamental é sinônimo de simples. Racionalizando, medo é a expressão de um aprendizado. Que se manifesta pela antecipação da perda, ou melhor, pela tentativa de medir a dor que virá com a perda. Como já dito antes, provavelmente foi fundamental para alguns primitivos sobreviverem tempo suficiente para legar seus genes.
Seguindo com essa álgebra conceitual, podemos dizer que a perda está intimamente ligada à ideia de posse. Parece óbvio, não se pode perder aquilo que não se tem. Faz sentido, mas alongando o tempo de observação perceberemos algo interessante: a posse é provisória enquanto a perda, inexorável. Seria exagero dizer que ter é uma ilusão?
Mas não há nada de novo em constatar como é efêmera a vida. Sim, todos sabem do seu inevitável final. E mesmo assim empenham seu tempo fugindo de impostos, ladrões, esquecimento, incêndios e qualquer coisa que possa adiantar uma subtração no “seu” patrimônio. Não professo saber o porque disso, mas arrisco dizer que talvez se ocupem com isso para não pensar em outras coisas…
Dito isso, podemos falar da primeira grande ilusão que lubrifica a sociedade como a vivemos: A ilusão de que o homem se define por aquilo tem.
Com essa ideia em mente, reiteramos o processo algébrico retirando toda a casca de complexidade. E conforme se pela as camadas urbanas e sociais, veremos a questão como se porta no microcosmo. A observação é que medo se resume à incapacidade (talvez indisposição) de responder “Quem sou eu?”, e seus 3 desdobramentos espaço-temporais.
Não é tarefa simples. É um processo de criação muito intenso, que irremediavelmente passa por limitar o caos de possibilidades infinitas, abrir quartos escuros e olhar o que há lá dentro, desconstruir alguns mitos e admitir algumas coisas incômodas. Pior? Provavelmente nunca se chega a uma resposta definitiva. Pela percepção (até inconsciente) do tamanho e dificuldade dessa tarefa, é que as pessoas passem as suas vidas esperando a morte enquanto esquivam a questão.
Pode parecer exagero, mas… será que o consumo não se tornou algo tão urgente em nosso meio, justamente por oferecer (falsas) respostas? O carro do ano, a roupa de marca, os eletrônicos de última geração, não vendem exclusivamente por seus aspectos técnicos. Como diz o adágio do marketing, são produtos que resolvem problemas que o consumidor não sabia que tinha. E por que outro motivo teriam tanto sucesso aquelas atividades não podem ser descritas de outra forma se não mind numbing, como WoW, Facebook, Igreja Universal, Tv? O processo de auto-conhecimento é doloroso, é mais cômodo comprar uma resposta pronta, além de ser mais rápida, a aceitação social vem de brinde…
A própria ideia de coletividade levanta algumas questões perniciosas. Dizem que devemos olhar com grande admiração o exemplo de desprendimento do animal que rói a própria perna para se livrar de uma armadilha. Mas não seria muito mais nobre, mais despreendido, maior, aquele que permanecesse na armadilha, conservando energias na espera de seu algoz, para eliminar a ameaça?
Não, eu não tenho uma resposta, apenas continuo na estrada. E não faço a menor idéia do que estão fazendo nessa capela.