Macaé, Rio de Janeiro.

Saudoso ente,

Sim, é tudo verdade: abandonei minha vida para ganhar um salário obsceno trabalhando numa indústria de idoneidade duvidosa.

Se isso lhe é informação suficiente, talvez devas mesmo parar de ler por aqui. Não garanto entendimento do que segue. Mas julgo conhecê-lo suficiente para afirmar que não será o caso. Confio que tua curiosidade te levará a algo… Maior. Com a devida complexidade é possível negar cada pequeno aspecto dessa mordaz afirmação( e bem, muito mais).

Farei isso. No entanto, preciso pedir-te umas desculpas. Apesar de uma aparente ociosidade às vésperas de minha partida, não lhe dei a devida atenção. Me encontrava em intensa atividade mental, digerindo a iminência da mudança, tentando preencher as lacunas daquilo que não sabiam me informar. Mas não vou me alongar na justificativa.

Sucintamente, existe, sim, beleza no que compartilhaste. E é certo que existe algo de intrigante, libertador … mas Temo, não por tua alma (já que alma não quebra), mas porque caminho que escolheste é possivelmente o mais árduo. Apesar da ressalva, tenho só a te agradecer. Obrigado.

No passado tentaria argumentar sobre alguma idéia vaga de moralidade empresarial. Não. Isso é hipocrisia. É uma extensão das mais complexas (e sindrômicas), do que afirmei no passado: somos mais animais do que gostamos de admitir. E como um grupo de pessoas, não surpreende que vigore algo como seleção natural entre as empresas, e uma relação predatória de equilibro delicado com a sociedade civil (rá!) e o meio ambiente. Eu sei, ser humano é Maior que isso, mas é o que existe, e não jogar implica em ser jogado.

E sem fugir muito do assunto, alerto. Talvez aches que compensa a tua pegada ambiental pagando mais caro por papel reciclado. É um embuste, mas a explicação fica pra outra hora. Por hora vê este video.

Sobre a remuneração, confesso algum incômodo em tratar abertamente, mesmo sem tratar valores. Mas percebo como sendo apenas o justo. E faço questão de frisar que o fator aventura pesou mais do que a cifra.

Quanto a abandonar minha vida, ora, não se enganes, morarás para sempre em meu coração.

O que acontece por aqui… é bem diferente. Diante desta tarefa me sinto como Pero Vaz, a escrever à coroa portuguesa. Já se espera que no litoral o verniz de civilização seja mais fino, mas me surpreendeu a selvageria dos garçons e atendentes. Talvez pensando nisso, nos deram um forte bem equipado, para que nos preocupássemos com pouco fora do trabalho. Sim, nós, voltei a morar em república.

Os prospectos são bons, e o sol brilha forte.

Pois bem, agora o sabes. Minha situação configura-se de tal forma que não poderia tratar de outro assunto. Ainda hei de contar os detalhes sórdidos e frívolos, dos causos insólitos… mas não hoje.

Precisava vencer a inércia e escrever alguma coisa. Agora vencida peço: ajuda-me a escrever mais. Conta-me da parcela de vida que deixei contigo. Se parece tarefa difícil (e não advogo o contrário), te ofereço uma singela pergunta-muleta.

Como vai a tua mente?

Um saludo prolixo,
Homem Hipotérmico