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the scent of a battle is near
the cannon sounds, A NEW YEAR BEGINS
FEAR NOTHING NOW, THE GANG’S ALL HEREÉ roll call tocando no despertador. Significa que são 5:20 e que perdi o primeiro alarme. Normalmente, levantar com Dropkick Murphy’s é motivante, uma aceleração rápida pra compensar o tempo da soneca. Hoje, não.
Hoje, acordar com essa desculpa de música significa que esqueci o que sonhei. Que provavelmente era melhor do que acordar com dor nas costas, num quarto empoeirado, com o barulho alto do ar seco e frio que entra pel’aquela máquina na parede. E certamente melhor que o prospecto de trabalhar o dia inteiro naquela oficina maldita.
Jogo as pernas pra fora da cama, as costas arqueadas procurando os chinelos na penumbra. O “solo” de guitarra da “música” seguinte começa, indicando que estou demorando demais. Porca miséria, não tomarei café da manhã então, satisfeito satanás?!
O escrito é meu. Mas foi surpreendente lembrar que de fato o dia começou assim.
Num súbito fôlego o ano novo começou, e o velho ficou pra trás. E como no estranho ritual de pular ondas e comer lentilhas, não entendi muito bem o que aconteceu. Até que tivesse acontecido.
Era terça-feira de manhã, e eu estava no Flamengo para minha primeira reunião com um cliente. Estava acompanhando um canadense. Era uma troca boa, ele me ensina o que sabe, eu banco o intérprete. A reunião foi um embuste: nós queríamos discutir os pormenores do embarque e da operação, eles queriam uma apresentação sobre o sistema de plugues duplos. O que segue não foi muito melhor: um almoço overpriced, uma espera infinita no aeroporto, um ônibus perdido.
Depender da boa vontade da logística…. não, já tinha dado errado demais. Eu pago o táxi, eu reservo o hotel, mas também vocês que dêem seus pulos pra me reembolsar. Foi quando as coisas começaram a melhorar. Jantamos bem, dormimos pouco no hotel caro.
Sonhei profundo no ônibus. Faltando pouco mais de 40 minutos pra chegar em Macaé sou informado que vamos a Cabo Frio. Uma parada muito rápida, fazer as malas correndo, pra não perder o vôo que sai às 13h. Almoço? Bah! Comer é para os fracos… Está acontecendo, finalmente vou embarcar! Brotou um enorme sorriso no rosto.
Tolo.
Vez e de novo a mesma lição. Não comemorarás em antecipação. O helicóptero para a plataforma tinha 10 lugares, mas aguardavam o check-in 13 passageiros. E claro que o trainee vai ficar em terra.
Dessa vez a logística me conseguiu um quarto, mas o taxi saiu do meu bolso, de novo. E não ajudou meu humor em nada estar num quarto grande, vazio e velho. Muitas perguntas. Andar pela cidade só trouxe uma amarga certeza: solidão não é estar sozinho, mas não querer a companhia de ninguém. E vaguei sem rumo, como se em alguma esquina subitamente fosse encontrar o porque de só dar errado comigo. Pela enésima vez.
Acabei por jantar no McDonaldas. Ei, pelo menos não tinha música ao vivo!
Acordei antes do sol, como um boneco de dar corda. Não quis café da manhã. Segui para o aeroporto incrédulo, nenhuma palavra com o taxista. Fui o primeiro a me registrar, mas outra vez meu nome não estava no manifesto. Tomei um toddynho, tentando não amargar.
Fui chamado no sistema de som. Passei pelo detector de metais, pela polícia federal. Me juntei aos outros passageiros que foram preteridos do vôo de ontem, numa salinha para assistir o briefing de segurança do Sikorsky-76. Dentro da aeronave, colete salva-vidas, protetores auriculares interno e externo. Aceitar o que estava acontecendo parecia um salto de fé com conseqüências dolorosas. Como se alguém pudesse vir ali e me levar de volta pro hotel.
Estou sentado bem atrás do copiloto. Tenho vista privilegiada, das janelas, dos instrumentos. O motor acelera, e mesmo com tanta proteção, o ruído é opressivo. O pássaro de aço levanta. Não é como eu antecipava: é suave. O girar das pás filtra os primeiros raios de sol em um batimento cinza. Sim, está acontecendo, finalmente está quebrada a maldição. O sorriso queima no peito, sinto pela primeira vez em muito tempo que estou mais quente que o mundo a minha volta.
A cidade parece mais bonita lá de cima. As casas no recuo da montanha ainda estão escondidas do sol, as usinas de sal estão começando a funcionar. Logo a praia fica pra trás. E a enorme pedra que a encabeça também. Só existe agora azul. Um profundo no mar, e um ameno no céu. Existe também um pavilhão dourado que machuca os olhos.
