Ou seria um lugar familiarmente estranho?
Faz pouco menos de um mês que ensaio escrever isso. O que é outra forma de dizer que faz pouco mais de um mês que estou vivendo em Bogotá. E antes de explicar o que se passa aqui já adianto (ou como diria a professora de português, “apresento a tese”): Um mês atrás não considerava Colombia nem como um destino turístico exótico; hoje, dá pra considerar viver aqui.
Não é ilógico. Antes de vir fui bombardeado com todo tipo de má impressão que poderiam me dar sobre o país. Em especial no que diz respeito a segurança: guerra civil, sequestros, atentados a bomba e envenenamento da água. Em vez de tentarem me tranquilizar, meus anfitriões aqui programaram um escolta armado pra me receber no aeroporto. E fosse só isso, me passaram um briefing alertando sobre ladrões de passaporte; bandidos que se passam por polícia; para não andar pelas ruas a pé, muito menos sozinho; e para, em hipótese alguma, pegar um taxi na rua. Boa!
E essa impressão ruim não se desfez tão rápido. Uma chegada muito mal programada, por gente que não estava muito a fim de trabalhar no feriado de segunda. Resultado, meu Kevin Costner, não estava ali. Por uma hora ali, na frente do aeroporto, sem conseguir falar com ninguém, já cogitava pegar o temido taxi amarelo. Não foi necessário, mas a novela não acabou tão cedo. Entre burocracias e falhas de comunicação demorei 5 horas pra conseguir finalmente desabar no apartamento.
E foi justamente fazendo o que diziam pra não fazer que descobri uma belíssima Bogotá. Saí para caminhar, nos entornos de onde me instalaram, e vi uma cidade bonita. Com dezenas de predinhos baixos com tijolinhos expostos e janelas gigantescas. Uma cidade organizada, de navegação cartesiana, com ruas limpas. A urbe encravada com audácia a uns 2600 metros de altitude, mas que teve a decência de não povoar os últimos 400 metros até o Monte Serrate, cartão postal local.
As praças merecem um parágrafo a parte. Não creio que em qualquer outro lugar tenha visto algo tão bucólico em um centro urbano. São bonitas, equipadas e bem cuidadas. A qualquer hora a alguém por ali, seja jogando bola, correndo, usando os equipamentos de musculação (todos em excelente conservação), vendendo empanadas e minutos de celular, ou empurrando o carrinho de bebê. Achei que era privilégio da zona dos grandes bancos, onde me instalaram. Mas não demorou a ver que assim também o é, nos bairros de classe média, os mesmo nos quase abandonados bairros industriais (ainda que nesse último, pela noite, se reunam prostitutas pra fumar crack).
O que é um outro ponto interessante. Afamadamente o maior produtor de cocaína do mundo, não se vê em bogotá (ou em qualquer outro pueblito que estive) alguém consumindo a droga. Na verdade não se vê as pessoas consumindo droga nenhuma. Raios! É raro ver alguém fumando, e mesmo os fumantes fumam pouco (tanto que os maços aqui são de 10 cigarros, e absolutamente todo lugar os vende avulsos). Mesmo o álcool… em tantos dias perambulando pelos bairos, não vi um bêbado nas ruas, fosse mendigo ou playboy saindo da balada.
Mantendo a linha alcóolica, vale dizer que a bebida aqui é cara. A bebida importada, isso é: um litro de vodka comum chega a custar 60 dolares no mercado. A bebida local é o aguardiente, sendo mais popular o de marca Nectar. É um destilado de cana, e seria como a 51. Se a 51 fizesse camapanhas milhonárias com modelos gostosas no horário nobre, e enfiasse essência de anis ad nauseum nas suas bebidas.
A cerveja local não é muito diferente da nossa. Aqui também as grandes marcas foram reunidas em um monopólio bizarro, e estão disponíveis em qualquer lugar a preços acessíveis. Mas existem duas diferenças importantes. Primeiro, a Club Colombia, bate com muita violência em qualquer cerveja produzida em larga escala no Brasil, tem um paladar rico e forte, como nenhuma das nossas. E segundo, esse mega monopólio levou a aparição de um sem-fim de cervejas artesanais, vendidas como chopp onde são produzidas (coisa que a gente ainda está engatinhando), e são muito boas, algumas até com selos internacionais.
E falando de bebida, no que toca o estomago o colombiano se parece com o brasileiro. O prato de todo dia é arroz. Feijão em várias apresentações, aparece mais ou menos dependendo da região. E batatas, que são praticamente obrigatórias, sejam assadas, cozidas, fritas ou na minha variedade favorita: Criollas. Que são batatinhas pequenas que são cozidas até amolecer, e depois fritas muito rapidamente com casca e tudo. A carne não é farta, nem particularmente saborosa e, previsivelmente, mais cara que no Brasil. Em vez disso eles comem muito dos peixes locais normalmente fritos inteiros (atenção para a mojarra), e um pouco menos frango.
Mas chama (e muito) a atenção são os fast-food. Claro que existe McDonalds, mas estão sempre meio abandonados: as opções locais de hamburguer são vastamente superiores. Não tem muito segredo. O hamburguer não espera sua vez de alimentar um freguês congeladinho no fundo. Em vez disso, a carne é moída, temperada, moldada e assada sobre carvão (sim, em todos eles!) a cada pedido. Não é tão fast, mas é muito mais food.
E se me perguntam do café, uma palavra: aguado.
Faltou falar sobre as pessoas.
Podia dizer que as colombinas são muito bonitas. Enfiar alguma foto de miss, e deixar por isso mesmo. Mas um certo artigo que li, sobre ser colombiano, me chamou a atenção. Ele começa citando Broges, “Ser colombiano es um acto de fé”. E vai longe dizendo que o local, é especilista em derrota: da copa de 62 quando eram favoritos (ainda brinca, o colombiano se orgulha de ter empatado com a russia 4-4 antes de ser eliminado), ao canal do panamá, ao segundo hino mais bonito do mundo, ao presidente que diz que vai baixar a corrupção às “justas proporções”.
É demasiado presunçoso achar que compreendo o nacional. Mas enquanto brasileiro (cof, cof, cof), me identifico um tanto com ele. Talvez porisso continuamos a nos foder tanto. Mas diferente do brasileiro malandro, que fode mais alguém (pra compensar), acaba que é um povo muito prestativo, atencioso, que conversa fácil, que espera muito pouco e agradece demais. E com certeza porisso, os considere mais que meu conterrâneo médio.
“…baixar a corrupção às “justas proporções”…”
Isso é tão familiar….
Hehe… cool!
Traz uns petiscos locais bons e tras pra nós!
adorei. tava procurando lugares para trabalho voluntário na latinoamérica (e to quase desistindo me botaram pânico de escravidão) e quando falei em colômbia teve gente dando ataque. devem fazer o mesmo quando gringo vem passear no centro de são paulo e trabalho lá e amo e me sinto segura e vontade lá. acho q é sempre assim. só deve ser real isso em lugar q tem exército constantemente, tipo sei la IRAQUE, mas nego bota mta pilha em capitais da américa a toa, nunca da pra acreditar muito.