vitruvian_vader

Faz um ano que escrevi pela última vez aqui. Tem uma garrafa de almaden vazia na geladeira, tem um cachorro dormindo no telhado. Nem tudo precisa fazer sentido. Também por isso começo com essa provoca- digo, imagem para romper o silêncio. Porque eu não sei fazer retrospectivas, nem votos para o novo ano.

Afirmando o óbvio, somos muito mais regidos por instinto e reações condicionadas, do que por nossa tão preciosa consciência. ((Ou como dissera outrora, “somos muito mais animais do que gostaríamos de admitir”, muito obrigado)). O que não é tão óbvio, ou talvez o que torne isso um pouco indigesto, é que isso nos faz muito mais integrados do que entidades totalmente autônomas e independentes.

Secularismo
Autonomia humana
Iluminação é universal
Progresso
Papel central da economia na política
Governo representativo
Razão

São alguns dos ideais que formaram o groundwork dos nossos valores, como uma espécie de psicoterapia cultural, que dá forma à coletividade cultural das sociedades modernas (tanto para “o bem” quanto para “o mal”). E é bastante pertinente querer saber se isso ainda presta. Qual o significado que adquiriram?   (ou de forma mais rabugenta, como pervertemos esses ideais?) Como isso se porta diante dos desafios que temos hoje? Poderia tratar um por um, no meu quase tradicional dissecar, mas não hoje.

Não ponho em dúvida a capacidade humana de adaptar-se. Mas temos que ter em mente, definitivamente mudamos nossa maneira de habitar o planeta. Viver diferente envolve ver o mundo, e a nós mesmos, de uma perspectiva diferente. O que podemos trazer dessa vivência, como frutos de nossas ciências vai nos dar uma percepção (profunda? não, diria apenas diferente) no entendimento da natureza humana…

Fundamental, é compreender que esse movimento é incipiente nas descobertas de sujeitos como Newton e Galileu. E tantos outros, que colocaram na mesa leis da natureza, experimentalmente comprovadas e matematicamente descritas. Mas mais importante que isso, que não concordam com a doutrina religiosa vigente. E nem com a intuição.

E esses insights, que nos presenteou a ciência, são incômodos de maneira similar. Porque a bem da verdade reagimos ao mundo a nossa volta muito mais de maneira automática do que depois de análise e ponderação deliberada.

Piece of advice se você quer ser mais feliz, não leia um livro de auto-ajuda, procure amigos felizes. Fato, nós somos terríveis para descrever o que nos fará felizes… Reconheça, até descrever o que te fez feliz é difícil. Na mesma linha de pensamento, avaliamos melhor valores relativos do que absolutos, e somos péssimos para decisões de longo prazo (responda rápido: prefere ganhar 5 reais agora, ou 10 daqui a 2 anos?).
{por exatamente esse motivo tão pouca gente faz tanto dinheiro nas bolsas de valores}

Nessa ótica, não é exagero dizer que temos uma base de evidências para criticar o individualismo, que pode ser entendido como o que se destila daqueles ideais iluministas.

Mas podemos ampliar o alcance da empatia, apesar dos grandes desvios que o século passado nos presenteou.

É verdade que conquistamos muito nos já bem 70 anos depois das grandes guerras. De uma forma geral, nossa história como germ-digo raça humana, é uma de diminuir a violência inter-pessoal. Sob a bandeira de direitos civis (um conceito frágil, quase risível) houveram conquistas substanciais em função de raça, sexo e sexualidade. E a despeitos de tudo de mal que já falamos de globalização, hoje temos o sofrimento de gente distante trazido nas nossas casas, se mais nada, isso facilita que nos coloquemos na posição de outros, e que sejamos mais tolerantes de uma forma geral.

Mas então, quem foi que puxou o freio de mão na ampliação da empatia, justamente na hora que tínhamos de acelerar??
Os níveis de desigualdade cresceram nos países ricos. Tensões entre grupos étnicos se agravaram e tomam novas formas. O sentimento anti-imigrantes cresceu. O que é um reflexo da incapacidade dos legisladores e burocratas de equilibrarem os impulsos globalizantes, e o ideal de universalidade, com a capacidade empática das comunidades mais afetadas por essas mudanças.

Então precisamos que a oferta mundial de empatia cresça se quisermos acordos, protocolos e convenções que valorizem as necessidades de longo prazo do planeta, e todas as pessoas nele; e não os interesses de curto prazo de nações poderosas.

Utópico? Certamente, mas nada que valha a pena não cai nesse balaio…
Pois bem, a cadeia que relaciona os diferentes níveis de empatia é bastante complexa. E por anos temos grandes mentes (além de políticos) queimando pestanas para determinar quais são os direitos, deveres, capacidades, enfim os parâmetros dessa universalidade. Mas será que não seria mais proveitoso uma abordagem mais intimista, procurando entender o que é que melhora (e o que piora) a nossa capacidade empática, ou seja esse sentimento universalista no micro-cosmos de cada um.

Se levado a sério, teríamos mudanças drásticas no escopo daquilo que chamamos de política. Teríamos de rever educação, não apenas nos programas escolares, mas a própria escola enquanto um órgão vivo da comunidade. E por que não? explorar os mecanismos que a cultura de massa usa pra nos fazer pensar sobre outras pessoas e nós mesmos. Central nesse tema, seria o desenvolvimento do hábito muito saudável em que discordância leva ao debate civilizado, muito (nada) parecido hábito de humilhação pública (sim, estou olhando pra vocês pessoas que não premiaram Susan Boyle).

No nosso contexto específico, é delicado falar de educação. No meu um pouco mais, tendo visto o que é o interior do Rio de Janeiro e da Bahia nos níveis populares. Tanto mais depois da nossa presidente ter canetado que todo o dinheiro dos royalties vai ser investido em educação. Mas existem estudos que mostram que mais dinheiro não resolve.É possível que minha apropriação seja inadequada, mas meus colegas podem explicar melhor. O que queria dizer, é que talvez tão importante quanto vencer o analfabetismo funcional é fomentar uma a capacidade empática, como meio para uma civilização (agora sem ironia) em que as pessoas vivem em paz com as outras, e com elas mesmas.

Mas mesmo com cidadãos mais empáticos e auto-conhecedores, haverão dilemas e impasses, e a questão “o que é progresso?” não deixara de ter sérias implicações éticas. Algo que deveríamos estar mais preparados parar reconhecer, respeitar e debater. A resposta utilitária é <Maximizar felicidade> . E se esse é o parâmetro, então é muito claro que estamos indo bem, de fato melhoramos muitos desde o iluminismo: os pobres do nosso terceiro mundo tem melhor saúde, vivem mais, e tem acesso a muito mais recursos e oportunidades, do que aqueles que viviam muito bem naquela época. Mas, as vezes…. bem as vezes, a ideia de que progresso deveria resultar num aumento de felicidade parece ter se tornado uma armadilha, na percepção de que procurar o progresso é o mesmo que melhorar o bem-estar social (e eu não quero refazer o discurso dos gordos apáticos).

O sucesso do hemisfério oeste, em praticamente tudo que vem depois do iluminismo está pautado em três lógicas dominantes: a da ciência e progresso tecnológico; a dos mercados; e a da burocracia. As duas primeiras estão limitadas na sua utilidade pela total indiferença ao interesse por um “bem” maior [“se podemos pesquisar e desenvolver armas, devemos fazê-lo”; “Se podemos vendê-las, devemos vendê-las”]. E o problema da terceira, é que tem a tendência de colocar a racionalidade das regras a frente da racionalidade dos homens (“não vamos vender armas pros caras maus”; o que de certa forma explica porque advogados parecem feiticeiros invocando seres antigos).

A desestagnação desse sistema depende de uma reafirmação da dimensão fundamentalmente ética do humanismo. Como podemos fazer mais fácil o ato de perguntar: “isto está certo?”
É real que a maioria de nós sente que a forma que damos às nossas vidas é ditado mais por circunstância econômica e convenção social do que por uma noção, ainda que vaga, de vida bem vivida. De que vamos passar a maior parte de nosso tempo : no primeiro quarto de nossas vidas estudando; no segundo e terceiro trabalhando e criando filhos; e que vamos nos sentir abandonados no quarto e último. Isto é vida bem vivida? Está certo?

Precisamos de um sistema que defenda um modelo de autonomia mais auto-consciente e socialmente contextualizado. Um que reconheça nossas fragilidades e limitações. Sem que isso signifique repudiar os direitos individuais (controlem-se, seus Stalinistas tarados!), nem subestimar a habilidade única que cada um tem de dar forma ao próprio destino. De fato, somente compreendendo(por falta de palavra melhor) que o pensamento racional e consciente é apenas um dos pretensos motoristas no desgovernado ônibus que seria a nossa mente, que vamos conseguir nos controlar, distinguindo o que é necessidade, o que é apetite. “Indulgência, não compulsão” como diria aquele satanista velho.

Que em última análise é separar o incrível potencial humano, da arrogância do individualismo. Estabelecendo a base da auto-consciência autônoma. Funcionar em uma sociedade verdadeiramente diversa, requer que tenhamos um relacionamento com nossas reações, no lugar de sermos prisioneiros delas. Parafraseando um sujeito Robert Keagan, temos de repelir a tendência de associar familiar à conceitos mais fundamentais como “verdade” e “correto”; e “errado” ou “falso”, a aquilo que nos é estranho.

Vejam, A racionalidade pode nos dar o melhor mapa pra irmos de A para B. Mas sem um discussão ética, não saberemos onde B deveria estar.

Em outras palavras, aquilo que queremos para as nossas vidas pode ser tão importante quanto aquilo que realizamos. Traduzindo livremente do Francês careca (M. Foucault): A crítica ontologia de nós mesmos tem de ser considerada, certamente, não como uma teoria, uma doutrina, nem mesmo como um corpo permanente de conhecimento que se acumula; Ela tem de ser concebida como uma atitude, um ethos, uma vida filosófica em que a a crítica do que somos é ao mesmo tempo a análise história dos limites que nos impõem, e uma experiência com a possibilidade de transgredi-los.

Ser responsável; Criar uma grande sociedade; Viver sustentavelmente…. Essas não são simples questões de vontade. Os conceitos aqui propostos requerem que olhemos mais distante do que as noções vagas e inadequadas de liberdade, de justiça e de progresso. Talvez seja hora de parar de seguir esses mitos, de ser paralisados por essas abstrações. E no lugar disso reconectar a uma compreensão concreta de quem somos enquanto seres humanos; o debate político de quem precisamos ser; e exploração filosófica e até espiritual de quem nos podemos aspirar a ser.

Senhoras, senhores, preponderâncias e leguminosas, boa noite. (ergue braço direito, palma virada para o rosto)

Me curvo (pequena mesura com a cabeça) com todo respeito diante da vossa portentosa alçoaba, e peço que desculpem a disnomia que segue. Não é falta de decoro (indicador direito em riste), é simplesmente falta de se importar um pouco mais com aquilo que vossas gordulências pensam do que vou dizer… Falta de educação dirão alguns, que seja. (dá de ombros)

O motivo que tomo a palavra, e me dirijo a este átrio do dogma sócio-político-religioso ao fim deste período ábitrário (abre os braços), é convidá-los a uma reflexão. Não tal como propôs o colega Eriberto (sorri para o Eriberto), sobre o que essa administração completou, ou (desvia o olhar do Eriberto) deixou de completar, no referido espaço de tempo.

Gostaria de refletir (as duas mãos tocam a gravata) sobre o que completamos ao fim desse décimo primeiro ano do segundo milênio da era cristã, e (pausa dramática, braços ao lado do corpo, postura solene) enquanto raça humana onde é que nos encontramos no caminho até a civilização.

Para isso proponho como gabarito talvez o que haja de mais exigente: a Ficção.
(Relaxa, ajeita o microfone) Vão dizer que sou muito pessimista, e que uma comparação dessa nunca traria resultados positivos… (sorri) sinto muito, colegas, é o que faço melhor.

Pois, uns dias atrás me prostrei diante da caixa de idiotas, a ver aquele filme, De Volta para o Futuro II. E posso lhês dizer, com audaz segurança, que não veremos nos 4 anos que vem, coisas tais como casacos que se secam, skates voadores, bares automáticos… E lhes digo isso com tristeza (fecha a cara), pois essa é uma obra que futuriza o consumo. Que no nosso rumo, é o mais provavel de acontecer, se é que alguma coisa além disso, de fato vem.

Não, senhores. Não, mesmo. (balança a cabeça)
Não temos colonias em Marte. Não eradicamos a fome. Não temos grande longevidade, nem higiene perfeita. Não temos robos para fazer nosso trabalho, ao contrário, estamos trabalhando muito mais. (fala de lado, com sorriso irônico) A maior parte de nós pelo menos.

Muitos dos senhores vão pensar então, que estavam mais certos os pessimistas. Talvez (dá de ombros).
(voz dissimulada fina com tom aristocrático) Mas veja, não temos um estado totalitário da utopia Orwellina!
(com impaciência) Ora, controle-se seu demagogo depravado!

Minha sorte (olha para o infinito), é que meus opositores não me acreditam esperto. Eles falam desse totatilarismo, eles falam dos tempos que não devem ser mencionados (prende a respiração com olhar de ódio)… esfregam nas nossas caras essa migalhas democráticas!

(pausa longa)

Não, meus pequenos amigos. (baixinho, olhando para baixo)
Eles estão tirando nossa atenção daquilo que deveria…. (levanta a cabeça, tom sóbrio) Vos convido a abrirem o anexo. E ver se não somos tentados a acreditar que é nossa coletiva culpa que caímos no outro extremo das ficção científica pessimista.

É conveniente pensar assim… Nos iludimos que os pessimistas erraram pra mais. Dizemos subconscientemente, quando a culpa é de todos, não é minha. Mas enquanto estamos lamentando (apoia braço esquerdo, e aponta com o direito lateralmente) eles estão lá com a boca botija!

São linhas de defesa de um armengue muito complexo, meus amigos. (apoia os dois braços e afunda nos ombros)
Enquanto o inofensivo Big Brother está lá no canal 5, eles estão comendo a sua mulher… proverbial, claro (tom conciliador). Mas o que importa, é que de fato o inofensivo é você…
(contolando exaltação) Desculpe, excelência, deixe me ser mais claro: você é um CORNO MANSO!!

(Pausa longa)

Os mais espertos vão me perguntar: Ótimo, e o que eu faço com isso?
(dá de ombros) Honestamente, eu não sei…. mas pare de ver futebol.

Muito obrigado e boa noite.

Ou seria um lugar familiarmente estranho?

Faz pouco menos de um mês que ensaio escrever isso. O que é outra forma de dizer que faz pouco mais de um mês que estou vivendo em Bogotá. E antes de explicar o que se passa aqui já adianto (ou como diria a professora de português, “apresento a tese”): Um mês atrás não considerava Colombia nem como um destino turístico exótico; hoje, dá pra considerar viver aqui.

Não é ilógico. Antes de vir fui bombardeado com todo tipo de má impressão que poderiam me dar sobre o país. Em especial no que diz respeito a segurança: guerra civil, sequestros, atentados a bomba e envenenamento da água. Em vez de tentarem me tranquilizar, meus anfitriões aqui programaram um escolta armado pra me receber no aeroporto. E fosse só isso, me passaram um briefing alertando sobre ladrões de passaporte; bandidos que se passam por polícia; para não andar pelas ruas a pé, muito menos sozinho; e para, em hipótese alguma, pegar um taxi na rua. Boa!

E essa impressão ruim não se desfez tão rápido. Uma chegada muito mal programada, por gente que não estava muito a fim de trabalhar no feriado de segunda. Resultado, meu Kevin Costner, não estava ali. Por uma hora ali, na frente do aeroporto, sem conseguir falar com ninguém, já cogitava pegar o temido taxi amarelo. Não foi necessário, mas a novela não acabou tão cedo. Entre burocracias e falhas de comunicação demorei 5 horas pra conseguir finalmente desabar no apartamento.

E foi justamente fazendo o que diziam pra não fazer que descobri uma belíssima Bogotá. Saí para caminhar, nos entornos de onde me instalaram, e vi uma cidade bonita. Com dezenas de predinhos baixos com tijolinhos expostos e janelas gigantescas. Uma cidade organizada, de navegação cartesiana, com ruas limpas. A urbe encravada com audácia a uns 2600 metros de altitude, mas que teve a decência de não povoar os últimos 400 metros até o Monte Serrate, cartão postal local.

As praças merecem um parágrafo a parte. Não creio que em qualquer outro lugar tenha visto algo tão bucólico em um centro urbano. São bonitas, equipadas e bem cuidadas. A qualquer hora a alguém por ali, seja jogando bola, correndo, usando os equipamentos de musculação (todos em excelente conservação), vendendo empanadas e minutos de celular, ou empurrando o carrinho de bebê. Achei que era privilégio da zona dos grandes bancos, onde me instalaram. Mas não demorou a ver que assim também o é, nos bairros de classe média, os mesmo nos quase abandonados bairros industriais (ainda que nesse último, pela noite, se reunam prostitutas pra fumar crack).

O que é um outro ponto interessante. Afamadamente o maior produtor de cocaína do mundo, não se vê em bogotá (ou em qualquer outro pueblito que estive) alguém consumindo a droga. Na verdade não se vê as pessoas consumindo droga nenhuma. Raios! É raro ver alguém fumando, e mesmo os fumantes fumam pouco (tanto que os maços aqui são de 10 cigarros, e absolutamente todo lugar os vende avulsos). Mesmo o álcool… em tantos dias perambulando pelos bairos, não vi um bêbado nas ruas, fosse mendigo ou playboy saindo da balada.

Mantendo a linha alcóolica, vale dizer que a bebida aqui é cara. A bebida importada, isso é: um litro de vodka comum chega a custar 60 dolares no mercado. A bebida local é o aguardiente, sendo mais popular o de marca Nectar. É um destilado de cana, e seria como a 51. Se a 51 fizesse camapanhas milhonárias com modelos gostosas no horário nobre, e enfiasse essência de anis ad nauseum nas suas bebidas.

A cerveja local não é muito diferente da nossa. Aqui também as grandes marcas foram reunidas em um monopólio bizarro, e estão disponíveis em qualquer lugar a preços acessíveis. Mas existem duas diferenças importantes. Primeiro, a Club Colombia, bate com muita violência em qualquer cerveja produzida em larga escala no Brasil, tem um paladar rico e forte, como nenhuma das nossas. E segundo, esse mega monopólio levou a aparição de um sem-fim de cervejas artesanais, vendidas como chopp onde são produzidas (coisa que a gente ainda está engatinhando), e são muito boas, algumas até com selos internacionais.

E falando de bebida, no que toca o estomago o colombiano se parece com o brasileiro. O prato de todo dia é arroz. Feijão em várias apresentações, aparece mais ou menos dependendo da região. E batatas, que são praticamente obrigatórias, sejam assadas, cozidas, fritas ou na minha variedade favorita: Criollas. Que são batatinhas pequenas que são cozidas até amolecer, e depois fritas muito rapidamente com casca e tudo. A carne não é farta, nem particularmente saborosa e, previsivelmente, mais cara que no Brasil. Em vez disso eles comem muito dos peixes locais normalmente fritos inteiros (atenção para a mojarra), e um pouco menos frango.

Mas chama (e muito) a atenção são os fast-food. Claro que existe McDonalds, mas estão sempre meio abandonados: as opções locais de hamburguer são vastamente superiores. Não tem muito segredo. O hamburguer não espera sua vez de alimentar um freguês congeladinho no fundo. Em vez disso, a carne é moída, temperada, moldada e assada sobre carvão (sim, em todos eles!) a cada pedido. Não é tão fast, mas é muito mais food.
E se me perguntam do café, uma palavra: aguado.

Faltou falar sobre as pessoas.
Podia dizer que as colombinas são muito bonitas. Enfiar alguma foto de miss, e deixar por isso mesmo. Mas um certo artigo que li, sobre ser colombiano, me chamou a atenção. Ele começa citando Broges, “Ser colombiano es um acto de fé”. E vai longe dizendo que o local, é especilista em derrota: da copa de 62 quando eram favoritos (ainda brinca, o colombiano se orgulha de ter empatado com a russia 4-4 antes de ser eliminado), ao canal do panamá, ao segundo hino mais bonito do mundo, ao presidente que diz que vai baixar a corrupção às “justas proporções”.

É demasiado presunçoso achar que compreendo o nacional. Mas enquanto brasileiro (cof, cof, cof), me identifico um tanto com ele. Talvez porisso continuamos a nos foder tanto. Mas diferente do brasileiro malandro, que fode mais alguém (pra compensar), acaba que é um povo muito prestativo, atencioso, que conversa fácil, que espera muito pouco e agradece demais. E com certeza porisso, os considere mais que meu conterrâneo médio.


the scent of a battle is near
the cannon sounds, A NEW YEAR BEGINS
FEAR NOTHING NOW, THE GANG’S ALL HERE

É roll call tocando no despertador. Significa que são 5:20 e que perdi o primeiro alarme. Normalmente, levantar com Dropkick Murphy’s é motivante, uma aceleração rápida pra compensar o tempo da soneca. Hoje, não.

Hoje, acordar com essa desculpa de música significa que esqueci o que sonhei. Que provavelmente era melhor do que acordar com dor nas costas, num quarto empoeirado, com o barulho alto do ar seco e frio que entra pel’aquela máquina na parede. E certamente melhor que o prospecto de trabalhar o dia inteiro naquela oficina maldita.

Jogo as pernas pra fora da cama, as costas arqueadas procurando os chinelos na penumbra. O “solo” de guitarra da “música” seguinte começa, indicando que estou demorando demais. Porca miséria, não tomarei café da manhã então, satisfeito satanás?!

O escrito é meu. Mas foi surpreendente lembrar que de fato o dia começou assim.

Num súbito fôlego o ano novo começou, e o velho ficou pra trás. E como no estranho ritual de pular ondas e comer lentilhas, não entendi muito bem o que aconteceu. Até que tivesse acontecido.

Era terça-feira de manhã, e eu estava no Flamengo para minha primeira reunião com um cliente. Estava acompanhando um canadense. Era uma troca boa, ele me ensina o que sabe, eu banco o intérprete. A reunião foi um embuste: nós queríamos discutir os pormenores do embarque e da operação, eles queriam uma apresentação sobre o sistema de plugues duplos. O que segue não foi muito melhor: um almoço overpriced, uma espera infinita no aeroporto, um ônibus perdido.

Depender da boa vontade da logística…. não, já tinha dado errado demais. Eu pago o táxi, eu reservo o hotel, mas também vocês que dêem seus pulos pra me reembolsar. Foi quando as coisas começaram a melhorar. Jantamos bem, dormimos pouco no hotel caro.

Sonhei profundo no ônibus. Faltando pouco mais de 40 minutos pra chegar em Macaé sou informado que vamos a Cabo Frio. Uma parada muito rápida, fazer as malas correndo, pra não perder o vôo que sai às 13h. Almoço? Bah! Comer é para os fracos… Está acontecendo, finalmente vou embarcar! Brotou um enorme sorriso no rosto.

Tolo.

Vez e de novo a mesma lição. Não comemorarás em antecipação. O helicóptero para a plataforma tinha 10 lugares, mas aguardavam o check-in 13 passageiros. E claro que o trainee vai ficar em terra.

Dessa vez a logística me conseguiu um quarto, mas o taxi saiu do meu bolso, de novo. E não ajudou meu humor em nada estar num quarto grande, vazio e velho. Muitas perguntas. Andar pela cidade só trouxe uma amarga certeza: solidão não é estar sozinho, mas não querer a companhia de ninguém. E vaguei sem rumo, como se em alguma esquina subitamente fosse encontrar o porque de só dar errado comigo. Pela enésima vez.

Acabei por jantar no McDonaldas. Ei, pelo menos não tinha música ao vivo!

Acordei antes do sol, como um boneco de dar corda. Não quis café da manhã. Segui para o aeroporto incrédulo, nenhuma palavra com o taxista. Fui o primeiro a me registrar, mas outra vez meu nome não estava no manifesto. Tomei um toddynho, tentando não amargar.

Fui chamado no sistema de som. Passei pelo detector de metais, pela polícia federal. Me juntei aos outros passageiros que foram preteridos do vôo de ontem, numa salinha para assistir o briefing de segurança do Sikorsky-76. Dentro da aeronave, colete salva-vidas, protetores auriculares interno e externo. Aceitar o que estava acontecendo parecia um salto de fé com conseqüências dolorosas. Como se alguém pudesse vir ali e me levar de volta pro hotel.

Estou sentado bem atrás do copiloto. Tenho vista privilegiada, das janelas, dos instrumentos. O motor acelera, e mesmo com tanta proteção, o ruído é opressivo. O pássaro de aço levanta. Não é como eu antecipava: é suave. O girar das pás filtra os primeiros raios de sol em um batimento cinza. Sim, está acontecendo, finalmente está quebrada a maldição. O sorriso queima no peito, sinto pela primeira vez em muito tempo que estou mais quente que o mundo a minha volta.

A cidade parece mais bonita lá de cima. As casas no recuo da montanha ainda estão escondidas do sol, as usinas de sal estão começando a funcionar. Logo a praia fica pra trás. E a enorme pedra que a encabeça também. Só existe agora azul. Um profundo no mar, e um ameno no céu. Existe também um pavilhão dourado que machuca os olhos.

Em 25 minutos eis que surge:

Macaé, Rio de Janeiro.

Saudoso ente,

Sim, é tudo verdade: abandonei minha vida para ganhar um salário obsceno trabalhando numa indústria de idoneidade duvidosa.

Se isso lhe é informação suficiente, talvez devas mesmo parar de ler por aqui. Não garanto entendimento do que segue. Mas julgo conhecê-lo suficiente para afirmar que não será o caso. Confio que tua curiosidade te levará a algo… Maior. Com a devida complexidade é possível negar cada pequeno aspecto dessa mordaz afirmação( e bem, muito mais).

Farei isso. No entanto, preciso pedir-te umas desculpas. Apesar de uma aparente ociosidade às vésperas de minha partida, não lhe dei a devida atenção. Me encontrava em intensa atividade mental, digerindo a iminência da mudança, tentando preencher as lacunas daquilo que não sabiam me informar. Mas não vou me alongar na justificativa.

Sucintamente, existe, sim, beleza no que compartilhaste. E é certo que existe algo de intrigante, libertador … mas Temo, não por tua alma (já que alma não quebra), mas porque caminho que escolheste é possivelmente o mais árduo. Apesar da ressalva, tenho só a te agradecer. Obrigado.

No passado tentaria argumentar sobre alguma idéia vaga de moralidade empresarial. Não. Isso é hipocrisia. É uma extensão das mais complexas (e sindrômicas), do que afirmei no passado: somos mais animais do que gostamos de admitir. E como um grupo de pessoas, não surpreende que vigore algo como seleção natural entre as empresas, e uma relação predatória de equilibro delicado com a sociedade civil (rá!) e o meio ambiente. Eu sei, ser humano é Maior que isso, mas é o que existe, e não jogar implica em ser jogado.

E sem fugir muito do assunto, alerto. Talvez aches que compensa a tua pegada ambiental pagando mais caro por papel reciclado. É um embuste, mas a explicação fica pra outra hora. Por hora vê este video.

Sobre a remuneração, confesso algum incômodo em tratar abertamente, mesmo sem tratar valores. Mas percebo como sendo apenas o justo. E faço questão de frisar que o fator aventura pesou mais do que a cifra.

Quanto a abandonar minha vida, ora, não se enganes, morarás para sempre em meu coração.

O que acontece por aqui… é bem diferente. Diante desta tarefa me sinto como Pero Vaz, a escrever à coroa portuguesa. Já se espera que no litoral o verniz de civilização seja mais fino, mas me surpreendeu a selvageria dos garçons e atendentes. Talvez pensando nisso, nos deram um forte bem equipado, para que nos preocupássemos com pouco fora do trabalho. Sim, nós, voltei a morar em república.

Os prospectos são bons, e o sol brilha forte.

Pois bem, agora o sabes. Minha situação configura-se de tal forma que não poderia tratar de outro assunto. Ainda hei de contar os detalhes sórdidos e frívolos, dos causos insólitos… mas não hoje.

Precisava vencer a inércia e escrever alguma coisa. Agora vencida peço: ajuda-me a escrever mais. Conta-me da parcela de vida que deixei contigo. Se parece tarefa difícil (e não advogo o contrário), te ofereço uma singela pergunta-muleta.

Como vai a tua mente?

Um saludo prolixo,
Homem Hipotérmico

Arrasto o garfo juntando os últimos grãos de milho. A mastigação é mecânica, enquanto observo as manchas de purê e molho na porcelana branca. Estou fugindo da última rejeição, e sei disso.

Trovão.

Lá fora o céu escurece, não parece certo que seja meio dia. Do outro lado da mesa os tios comentam “esse tempo louco”. Entro na conversa sem muito interesse, anunciando minha vontade de nadar. A idéia não encontra censores, nem companheiros.

A chuva cai forte lá fora. Os pingos grossos impedem de ver além do primeiro coqueiro, e tingem o quintal de um cinza. Um cinza mudo que atenua a cor das acerolas .

Levanto-me no mesmo instante que a tia chega com duas vistosas embalagens. Doces, na certa. “Não quer sobremesa?”

Sorrio uma negativa. Tiro a camiseta de algodão branco, deixando-a sobre a cadeira que a pouco ocupava. Corri pela varanda e através do caminho de pedras. Serpenteando por entre os coqueiros e as árvores de fruta, o caminho parece muito mais longo do quando visto de cima. A chuva é fria e muito intensa, castiga a pele. Acelero o quanto posso no piso escorregadio.

Ponho mais força nos últimos passos para que o salto se pareça mais com um vôo. Atingi a água morna, a sobre carga sensorial me leva a outro mundo. Como a piscina é funda, mas estava pouco cheia, só existem ali a água agitada, as paredes de vinil imitando ladrilhos e o céu revolto mandando sua chuva.

Nadei a extensão da piscina 10 vezes, para cansar. Submerjo estafado. Solto o ar gradualmente para deitar-me ao fundo. Conto de 10 a 0. Não existe mais cansaço, chuva, piscina. Sinto me um com tudo isso. Me esforço para lembrar do email que me fez apático durante a orgia natalina.

“Prezado candidato” – Uma pequena mancha no monitor distorcia as últimas letras. Esperei a resposta por dias. E a incrível experiência no processo de seleção só alimentaram a expectativa. Frustrada: “Não tem o perfil”.

Repeti a parte ruim. E mais uma vez, e de novo. Até que se tornou pequena. Tão pequena que se tornou indigna de toda a reação que causou no noite anterior.

O ar começou a faltar. Subi rápido e inspirei vigorosamente. Sem a lente de água revelam-se os detalhes intrincados nas nuvens. Sorri, agora estava tudo bem.

Estava dispersando, pela quarta ou quinta vez naquela hora. Concentração fica muito difícil depois de 10 horas no mesmo assunto. Li uma notícia, e achei justo (e saudável) dar os meu dois centavos no assunto.

Deputado mais votado, 1,3 milhões de votos. É isso mesmo, propositalmente me abstive de opinar sobre essas eleições, mas vou falar do palhaço.

Sei de gente que está indignada, culpando esse ou aquele segmento. Outros que acham merecido. O tal promotor parece levar uma cruzada para impedir que ele tome posse, e novamente os ânimos se aquecem: de um lado dizem que é uma afronta à democracia; do outro, que ele não pode assumir se não tiver capacidades pra isso.

Mas não é nesse debate que vou sujar minhas botas. Existe um dado de realidade objetiva que diz muito mais do que as trivialidades morais que se opõem: Tiririca foi eleito e está tendo que provar que sabe ler e escrever.

Por quê?

Por que um comediante de humor duvidoso, que já tinha caído no esquecimento, recebe mais votos do que o segundo e terceiro lugares somados? E por que ele está tendo que provar que sabe ler e escrever?

É quase impossível fugir da resposta trivial: porque a educação está uma merda!
Não é falta de decoro, nobre leitor, a palavra é essa mesma, merda.

E acredito que a palavra trivial só cabe, pelo sentido matemático, de solução imediata. Porque existem aspectos que apesar de óbvios são muito confortavelmente ignorados. Oh não, eu não empenhei todas essas linhas pra dizer “mais dinheiro nas escolas públicas”.

Claro que isso faz parte (alguns diriam, com respaldo estatístico, que não, mas não é bem esse o ponto). Mas não é da parte fácil que eu quero falar (raramente é). Porque a educação também está uma merda(3) na escola privada. Mas como se papai e mamãe se estragam de tanto trabalhar pra pagar a mensalidade… Porque a educação também está uma merda(4) no ensino superior, inclusive nas melhores do país. Mas como se o governo do estado despeja tanto dinheiro nelas…. Porque a educação também é uma merda(5) na pós-graduação strictu ou latu-sensu. Mas como se os cursos são tão caros….

Estamos vendo um padrão?
Não vou entrar no mérito do gastar muito versus gastar bem…. Porque neste país é normal que o sujeito passe 15 anos na merda(6) da escola, e tudo que ele tire de lá é a capacidade de decodificar letras em sons, mas não de depreender o seu significado. Pior, que ele olhe pra um problema cotidiano e se pergunte “Mas é de mais ou de menas, essa conta?”. É um problema grave, mas não sejamos hipócritas, a merda(7) no alto fede mais.

Em 98 FHC disse que era tudo lama. Antes fosse….

O que eu vejo é um problema de vontade. Porque não tem nada de errado com uma nota ruim de matemática, é tão difícil, né? Ah, mas não dava pra ter feito um paper melhor nesse prazo, não com a festa do boringugu na quarta e o rodeio universiotário na sexta. E bom, esse trabalho que eu estou entregando tá bem acoxambrado, o professor finge que não percebe, a gente finge que não sabe que é um monte de mer- perdão, colega, estrume. E você bem sabe…. pra ficar bom mesmo, a gente estaria que nem aquele doido ali, se matando de estudar.

Não adianta falar de modelo sul coreano, de progressão continuada, de obrigatoriedade do cálculo diferencial ou de distorções na demanda do mercado de trabalho. Enquanto estiver marginalizada a intelectualidade e a verdadeira busca por conhecimento, principalmente entre nós da classe mérdia(8)…. bom, a verdade é que vai continuar uma merda(9).

E por que retomar esse tema agora, assim?
Fosse um pouco menos fantoche, o sujeito eleito poderia hastear essa bandeira. É uma oportunidade de ouro, hence the title. Reconhecesse as dificuldades, que não teve condições de ter uma educação melhor, e que apesar de ter conseguido se virar assim, sabe que isso não é lugar comum. Já que a equipe faz tudo por ele, articulassem propostas com as ONGs que estão engajadas nisso, procura benchmark internacional, identifica os casos de sucesso… mas mais importante usa da popularidade pra enfiar isso na cabeça das pessoas. Já pensou? O palhaço acusado de analfabeto revolucionando a educação do país…. é um enredo melhor do que o do torneiro mecânico que vira presidente carismático.